Fui convidado e concedi uma entrevista pro fiberonline, onde pude responder umas perguntas bacanas sobre produção musical, processo criativo, influências musicais e muito mais. As perguntas foram feitas por Alexandre Bezzi. Reproduzo aqui na íntegra:
Jarrier Modrow é um produtor musical do Rio Grande do Sul que tem trabalhos lançados por selos nacionais e internacionais. Modrow produz música eletrônica desde 1999 e prefere as sonoridades deep e funky da house e da disco, synths espaciais, new wave e o que mais tiver groove retrô-futurista.
Com duas faixas presentes em nossa comunidade musical (“Let´s Boogie” e “Sunny Sunday”), Jarrier ainda divide seu tempo escrevendo sobre música em sua página pessoal e com o seu selo Yo Playa! Records. Bati um papo com ele para saber mais sobre seus gostos e processo criativo.
1-Quando você teve certeza que queria se envolver no universo da disco music e em produção musical?
Eu comecei a fazer minhas próprias músicas por volta de 1999. De início num teclado yamaha que gravava algumas pistas midi, mas ele tinha poucos recursos. Eu passava pra fita cassete, e foram os primeiros registros, ainda que bem experimentais. Não demorou muito e eu já estava decifrando os softwares sequenciadores, estudando, praticando, aprendendo, sempre sozinho, como autodidata mesmo. A certeza que eu tinha e tenho é que queria fazer música eletrônica, inicialmente house music. A disco vai ser sempre referência, juntamente com o espectro todo da black music oldschool.
2 – Você já tocou outros estilos no passado?
Eu nunca discotequei, sempre só produzi. Sempre procurei investir na parte de criação. Já criei bases de hip hop para alguns camaradas, no início produzi um ou outro drum’n'bass também, breakbeat. Eu gosto de grooves, novos ou antigos, orgânicos ou sintéticos. Gosto de boas melodias, harmonias e beats funky, o bpm pouco importa. Não estou e não quero ficar limitado a um só estilo. Eu tenho outros projetos paralelos recentes também, como Will Phono, e outros em andamento, que serão lançados pelo meu futuro netlabel Yo Playa! Records.
3 – Quais artistas e produtores te influenciaram?
Quando comecei a produzir house music, pelo menos três músicas me inspiraram muito na época, Eclipse – Makes Me Love You, Pete Heller – Big Love e David Morales – “Needin´U. Eu queria produzir faixas que passassem o mesmo sentimento que essas músicas me passavam, esse som soulful e “disco-oriented” da virada do milênio. E bem antes disso eu já conhecia e escutava Prodigy, que é o oposto, enfim, foram muitas outras influências. Hoje em dia tudo que eu escuto me influencia, me dá novas idéias para aplicar em futuras produções. E estou cada vez mais interessado em produzir faixas com estrutura pop, que sejam mais compreendidas, consumidas e digeridas pela maioria que infelizmente ainda não assimila bem o conceito de batidas sequenciais e repetições da house music e gêneros similares.
4 – Tem alguns nomes da nova geração que estão representando bem a nu disco? Algum que você recomende?
Estou sempre atento aos últimos lançamentos do junodownload, beatport, traxsource. Confiro o hypemachine, sigo indicações do last.fm, youtube. Surgem novidades diariamente, então prefiro não citar nomes. Também pesquiso direto na fonte, a origem de (quase) tudo, lá nos 70′s e 80′s, principalmente pelo youtube. Gosto de procurar discos de vinil ripados lá, de projetos e bandas obscuras de funk, disco, italo disco, spacesynth. A nu disco é uma tag nova, mas o som não é assim tão novo. Tem um projeto sensacional, que não é estritamente nu disco, mas que me impressionou e recomendo: o Multipac.
5 – Notei que suas produções têm uma influência de artistas do coletivo Valerie e do selo Italians Do It Better. Você costuma acompanhar as novidades deles?
Sim, acompanho muito, mais o coletivo Valerie. Gosto também de outros coletivos/selos, como Mullet Records, Binary Records, entre muitos outros. A filosofia do coletivo Binary é perfeita: “We believe in the sun, vintage synths, killer hooks, killer cocktails, and killer girls with killer looks.”
O fato é que a sonoridade do material lançado por esses selos tem ligação direta com o som dos supracitados anos 70 e 80 que é onde eu também busco inspiração. A Nightdrive With You do Anoraak é fantástica, assim como a Make It Better. Comparando essa última com a música Shattered Dreams de uma banda dos anos 80 chamada Johnny Hates Jazz, dá para notar bem a influência.
6 – A disco deixou de ser um estilo voltado a um público nostálgico e renasceu com força total na década passada. Seria um curso natural, ou simplesmente o público cansou de techno, electro e suas vertentes?
Acho que as duas coisas. Acredito que as pessoas querem músicas que “contem histórias”. O techno, minimal, electro mais sujo, quando baseados só em ruídos e barulhinhos, com kicks cadenciados em cima, você não tem isso, é um som frio, repetitivo, cansativo. Um dos trunfos da disco music, dos músicos e produtores ligados a ela lá no passado, é que eles criaram arranjos atemporais, inovadores e extremamente criativos, tocantes. Não é só ritmo, beats, é música de verdade. Por isso que ela é eternamente sampleada e fonte inesgotável de inspiração para vários estilos musicais.
7 – Como anda a cena eletrônica no Rio Grande do Sul?
Eu não saberia te responder. Parece contraditório, mas apesar de eu produzir basicamente música pras pistas, eu não frequento muito elas. Eu não teria como opinar, sendo que eu não conheço literalmente a cena, não tenho muitas ligações com o pessoal que faz parte dela. Minha ligação é mais com a produção, com a música em si, e uso a internet pra divulgar o trabalho. Pelo menos até hoje têm sido assim, amanhã eu não sei. Pelo last.fm por exemplo, eu vejo que tenho ouvintes de várias partes do mundo, mas no meu Estado, na minha cidade, pouca gente me conhece, é estranho.
8 – Como funciona seu processo criativo? Quais ferramentas costuma usar para editar e mixar suas faixas?
Normalmente eu inicio uma nova track pelos beats mais básicos, em seguida crio uma progressão simples de acordes. Fecho um trecho em loop, e vou acrescentando linhas de baixo, melodias de algum synth, e vai surgindo as idéias, vou lapidando, desdobrando. A composição, produção, mixagem, é feita basicamente no Reason, rodando num notebook. Uso um teclado controlador Ozone da M-Audio e monitores de áudio Yamaha HS50M. Exporto todo material criado e abro no Acid, para finalizar e masterizar, utilizando alguns bons VSTS. Mais uma vez exporto e finalizo tudo no Sound Forge, aplicando o tratamento final. Mas não é tudo tão simples e fácil como essa descrição, não tenho uma fórmula, é sempre um processo moroso pra chegar ao resultado e sonoridade desejada. Eu não tenho muitas faixas produzidas e lançadas, quero ser mais prolífico.
Clique aqui para acessar no fiberonline a página original da entrevista.

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